No Boletim 379 a Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos divulgou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) haviam reclassificado os herbicidas à base de glifosato para "altamente tóxico". Ao que tudo indica não procede a informação, obtida em artigo de um professor da Universidade de Buenos Aires.
Contudo, deve-se ressaltar que o glifosato não é aplicado puro nas lavouras. O Roundup (nome comercial do herbicida da Monsanto) é uma combinação do glifosato com outros químicos, incluindo um surfactante (detergente), que aumenta a difusão das gotas do produto nas folhas das plantas.
No caso das plantas transgênicas tolerantes ao herbicida (Roundup Ready), as moléculas do produto devem entrar na planta para agir. Esse herbicida não é destruído na planta, mas na maioria dos casos é neutralizado pela ação de uma enzima. Assim, o herbicida entra na cadeia alimentar, coisa que não acontecia antes, uma vez que as plantas tratadas morriam.
Um estudo epidemiológico com agricultores de Ontário (Canadá) mostrou que a exposição ao glifosato quase dobrou o risco de abortos espontâneos precoces. O Prof. Eric-Giles Seralini (da Universidade de Caen, na França) e sua equipe deram seqüência a essas evidências e mostraram que o glifosato é tóxico para as células placentárias humanas, matando uma grande porção destas após 8h de exposição em concentrações inferiores às utilizadas na agricultura. Além disso, o Roundup é sempre mais tóxico do que seu ingrediente ativo, o glifosato -- no mínimo duas vezes mais. O efeito aumentou com o tempo, e foi obtido com concentrações do Roundup 10 vezes menores do que as utilizadas na agricultura (Richard, 2005).
Novas pesquisas mostram que breves exposições ao glifosato comercial causaram danos no fígado de ratos. Nesse estudo, o glifosato e o surfactante agiam em sinergia para aumentar os danos ao fígado (Benedetti et al., 2004).
É nesse contexto que a reavaliação toxicológica que começa a ser promovida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária / Ministério da Saúde) ganha destacada relevância. Até novembro, 14 ingredientes ativos de agrotóxicos serão reavaliados. Entre eles aparecem produtos como o inseticida endosulfan, proibido na União Européia, o herbicida paraquat, que já foi associado ao aumento dos riscos de desenvolvimento de mal de Parkinson e o herbicida glifosato. No caso do veneno usado na soja transgênica, a Monsanto já solicitou a revisão da dose de ingestão diária aceitável, propondo que este seja ampliado.
Ou seja, a empresa que prometia um menor uso de herbicidas agora pede mudanças nas regras para que a população coma mais veneno. A Secretaria de Agricultura do Paraná divulgou dados informando que entre 2003 e 2006 aumentou em 97% o resíduo de glifosato na soja transgênica colhida no estado. Também o Ibama informa que "para cada quilo de princípio ativo [de herbicida] reduzido no RS, houve um aumento de 7,5 kg de glifosato no período de 2000 a 2004, época de expansão da área da soja RR".
O uso de herbicida na soja RR é crescente. Já foram documentadas 13 espécies de plantas espontâneas resistentes ao glifosato (www.weedscience.org), sendo sua maior parte em áreas cultivadas com plantas transgênicas resistentes ao produto.
Se nem OMS nem EPA usaram esses dados para atualizar a classificação do glifosato, que o Brasil seja o primeiro a fazê-lo. Mas será fundamental que a sociedade esteja atenta para que o interesse público fale mais alto que a politicagem dos ruralistas.
A Agência Estado revelou que Dirceu Raposo de Melo foi reconduzido em tempo recorde à direção da Anvisa em triangulação que envolveu o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO). A ruralista ameaçou pedir vista do processo de nomeação e, para não atrasá-lo, cobrou rapidez na liberação de agrotóxicos genéricos, como os produzidos na China. Chinaglia organizou então café-da-manhã em sua casa chamando Kátia Abreu e também o ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO). Após o encontro o nome de Raposo de Melo foi aprovado. Logo depois da sessão que confirmou seu nome, Melo ligou para Caiado combinando nova reunião.
Como se vê, corremos o risco de vermos as normas sobre agrotóxicos serem afrouxadas pela ação de ruralistas, ao invés de reavaliadas de maneira rigorosa e transparente de modo a proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. A ação vigilante da sociedade civil é fundamental e urgente.
Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos
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