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notícias
| 25/04/08 | Sobre a alta no preço dos alimentos |
A alta nos preços dos alimentos é destaque em todo o noticiário, e desde 2007 vem gerando protestos em quase vinte países. Como resposta, alguns governos estão aplicando medidas para baratear a importação de alimentos e, em outros casos, para impedir ou sobretaxar a exportação de itens como trigo, arroz e óleos comestíveis.
No México, por exemplo, a alta do preço do milho reflete a escassez do produto no mercado internacional em função da produção americana de etanol. No Brasil, onde usa-se soja para a produção de biodiesel, a inflação medida em abril registrou alta de 8,82% no óleo. De 2005 para cá, saltou de 20 para 50 milhões de toneladas o consumo mundial de grãos para produção de combustível. Como resultado, o decrescente estoque global de grãos é suficiente para cobrir o consumo mundial de apenas 55 dias.
Outros fatores também devem ser adicionados à lista, como o aumento da população sobre a terra em cerca de 70 milhões de pessoas por ano, problemas climáticos como a seca na Austrália e o excesso de chuvas na Bolívia e o crescimento do consumo de carne (ou grãos transformados em carne) em países como China e Índia. Não menos importante é a subida do preço do barril do petróleo, que esbarrou nos 120 dólares. Com tudo isso, já não são poucas as análises a afirmar que a era dos alimentos baratos pode estar se encerrando.
Em reportagem publicada esta semana o New York Times apresenta como resultado da chamada "crise dos alimentos" uma suposta redução da rejeição global aos transgênicos. Segundo o jornal americano, empresas que aderiram a políticas de rejeição aos transgênicos, por exemplo no Japão e na Coréia do Sul, agora não podem mais pagar um preço adicional pelo produto livre de transgênicos para atender às demandas dos consumidores. Seguramente esta não é uma resposta estrutural para o problema.
Enquanto governos, FAO, FMI etc. debatem a questão da inflação sobre o preço dos alimentos, um estudo de três anos feito por um pesquisador da Universidade americana de Kansas mostrou que a soja transgênica produz cerca de 10% menos que a convencional. A pesquisa confirma resultados anteriores da Universidade de Nebraska que apontaram produtividades menores para a soja transgênica entre 6 e 11%. Ao comentar a pesquisa de Kansas, a Monsanto afirmou estar surpresa com o valor encontrado, mas não com o fato de sua soja ser menos produtiva. A produtividade mundial de grãos que cresceu em média, 2,4% entre 1950 e 1990, desde então reduziu seu ritmo para 1,2% ao ano.
Para o sojeiro e governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, "Não há como produzir mais comida sem fazer ocupação de novas áreas e a retirada de árvores", como declarou em entrevista à Folha de São Paulo. Claramente, o atual sistema de produção e distribuição de alimentos mostra esgotamento e a resposta não pode ser "mais do mesmo" como sugere Maggi.
Contra a posição do governador do estado campeão em desmatamento e uso de agrotóxicos no país, estão mais de 400 pesquisadores de todo o mundo que concluíram que o modelo agrícola atual precisa passar por uma revisão geral, como relatamos no Boletim 389.
A viabilidade dessa revisão geral da agricultura foi estudada por pesquisadores da Universidade de Michigan, que ao avaliar a produção agroecológica em diversos países concluiu que a agricultura agroecológica pode sim abastecer toda a população mundial, tanto local como globalmente (ver Boletim 366).
A pesquisa também apontou que além de poder alimentar toda a população mundial, a agricultura ecológica tem potencial para inclusive abastecer uma população ainda maior mesmo sem ter que a aumentar a área agrícola cultivada.
Também nesse mesmo sentido, um relatório da FAO divulgado em 2007 reforçou o potencial e a necessidade de a agricultura ecológica substituir a agricultura convencional. Para a FAO, o atual modelo agrícola é paradoxal: produz comida de sobra enquanto a fome atinge 850 milhões de pessoas, o uso de agroquímicos vem crescendo mas a produtividade das culturas não e o conhecimento sobre alimentação e nutrição está cada vez mais disponível e é acessado cada vez de forma mais rápida, porém um número crescente de pessoas sofre de má-nutrição.
O grande desafio é político. E a resposta deve atacar o problema em seu conjunto. Promover o etanol pelos quatro cantos pode resolver problemas dos usineiros, mas não do aquecimento global nem muito menos da oferta de alimentos. Pelo contrário.
AS-PTA
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