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25/07/08   Economia, Ecologia e os Conflitos do Desenvolvimento

Representantes da chamada Economia Ecológica, que enfoca o confronto entre desenvolvimento econômico e meio ambiente, os professores José Eli da Veiga e Maria Amélia Enríquez apresentaram na SBPC dois temas exemplares para um maior entendimento dessa oposição. Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, Maria Amélia trouxe à tona o conflito entre o atual modelo de crescimento e a preservação ambiental na Amazônia.

Primeiro, contextualizou a visão de um conflito estrutural: a escala de utilização dos recursos naturais, com a incessante busca de matérias-primas e espaços territoriais, em contraponto ao nível de consumo e ao crescimento demográfico. "Já pelo conceito de Economia Ecológica, o funcionamento da sociedade está assentado sobre um sistema mais amplo, a própria biosfera, que é a base de recursos para as atividades humanas", expôs a professora, que é também pesquisadora da Universidade Federal do Pará.

Em relação ao modelo forjado para a Amazônia nos últimos 30 anos, a tendência histórica de uso e ocupação do território jamais levou em conta o papel ecossistêmico da natureza local. Tanto que hoje, mostrou Maria Amélia, estados com o PIB mais elevado são também os maiores desmatadores, a exemplo do Mato Grosso, enquanto aqueles que buscam alternativas de preservação contam com os menores índices de crescimento. "O modelo que não contempla políticas de preservação é o que aparece nos indicadores econômicos".

Diferente de um todo homogêneo, a Amazônia convive com realidades que vão da ocupação desenfreada do sudeste do Pará à maior preservação do oeste do Amazonas, por exemplo. Neste caso, os desafios da região passam pela diversidade de usos e a garantia da floresta de pé para a sustentabilidade local.

"E não é estranho o maior PIB da Amazônia ser justamente o do Mato Grosso, estado que mais desmata, já que esse indicador é um dos maiores erros de avaliação de crescimento e precisa ser eliminado o quanto antes de qualquer raciocínio econômico, principalmente quando se quer medir bem-estar", introduziu o professor José Eli da Veiga. Em sua fala, ele procurou revelar porque o Produto Interno Bruto não expressa a verdadeira Economia Ecológica de um país, que deve levar em conta tanto a energia necessária ao funcionamento das atividades quanto o descarte de dejetos.

Não só o uso dos recursos naturais é excluído do cálculo do PIB, mas uma série de esforços e conquistas que compõem a realidade social. "Se a sociedade se mobiliza para reduzir os danos de um grande vazamento de óleo, esse trabalho não entra na conta. Ou se a vítima de um acidente de carro não vai para o hospital e movimenta o mercado, o fato é descartado pelo PIB", exemplificou.

Sua preocupação se explica pela importância histórica dada ao indicador na valorização do progresso das economias nacionais desde o pós-guerra. E isso hoje, segundo Eli da Veiga, é como uma miragem em que nos pautamos para encobrir conflitos estruturais. Entre esses conflitos, a idéia de que o 'metabolismo' econômico apresenta falhas na relação entre as atividades humanas e o restante da natureza, que teriam se iniciado antes mesmo da Revolução Industrial.

Eli da Veiga mostrou, por exemplo, que um país pode aumentar seu PIB por determinado período, ao mesmo tempo em que sua riqueza está diminuindo, "como um taxista que não calcula a amortização do desgaste do carro, se ele considera tudo lucro aos poucos seu ativo perderá valor".

Nesse sentido, o professor da Faculdade de Economia e Administração da USP noticiou a articulação de movimentos mundiais que vêm buscando alternativas para o índice adotado hoje por 141 países. A exemplo da França, que formou recentemente uma comissão para analisar e propor um novo indicador de economia, coordenada pelos economistas ganhadores do Prêmio Nobel Amartya Sen e Joseph Stiglitz, também o Brasil vem abrindo espaço para a discussão do assunto através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Persiste como via menos unilaterial o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas que segundo o professor também contempla o cálculo do PIB per capita e, de forma precária, faz com que países de realidade opostas ocupem o mesmo patamar, a exemplo de Cuba e dos Emirados Árabes Unidos. "Em Cuba a renda é baixa e os índices de Educação e Saúde altos. Nos Emirados faltam os dois últimos e os lucros do petróleo são altos. No fim os dois aparecem com o mesmo índice", concluiu.

Heloisa Bio Ribeiro 

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