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28/07/08   A história de Suape: desenvolvimento a qualquer custo

O caso do projeto do porto de Suape, em Pernambuco, surge na história do país entre as mais claras evidências da posição que considera o meio ambiente como simples externalidade do cálculo econômico. A partir desse tema, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Clóvis Cavalcanti, encerrou a mesa "Economia, Ecologia e os Conflitos Ambientais do Desenvolvimento" na semana nacional da SBPC deste ano. O objetivo da apresentação foi, principalmente, o de demonstrar o triunfo dos valores econômicos sobre um episódio particular de conflito ambiental.

O projeto de Suape nasceu no período do chamado "milagre brasileiro", início dos anos 1970, com a idéia de dotar Pernambuco e o Nordeste de um porto de águas profundas – o qual seria uma mola indispensável da infra-estrutura para grandes saltos econômicos. "Só não se contava que o local para o projeto estava povoado de gente, contendo rios, praias, manguezais, matas e uma paisagem belíssima", enfatizou Clóvis.

Do lado oposto, o consultor Lafayette Prado, que elaborou a concepção do porto, chegava a argumentar: "A busca de áreas adequadas para a implantação de portos à altura dos requisitos futuros, infelizmente, não encontra em nosso território um elenco amplo de alternativas. Fora de São Sebastião, em São Paulo, de Suape, em Pernambuco e de Ponta do Espadarte, no Pará, não se conhecem outras localidades que ressaltem tantos pontos a favor e características tão convidativas. Trata-se, portanto, em cada caso, de tirar o melhor partido das dádivas da natureza, afeiçoando-a segundo nossas necessidades e despertando-a para atividade profícua".

Dentro da visão distorcida do desenvolvimento a qualquer preço, a economia é vista como sistema isolado, sem um entorno com o qual se relacione, e é justamente essa a crítica da chamada Economia Ecológica, da qual o palestrante faz parte. "Defendemos uma visão da atividade ou processo econômico na ótica da biosfera, dos ecossistemas", definiu.

Desde o início do projeto de Suape, o pesquisador esteve entre as principais lideranças do movimento contrário ao porto. Em manifestos publicados na imprensa, como o Jornal do Recife, os ambientalistas de então, ainda em 1975, lembravam que não se levava em conta a ocupação antiga na área do projeto, a qual seria bastante desfigurada. E mais, a previsão de abertura de duas "janelas" no cordão de recifes do complexo lagunar representaria destruição desta formação característica, da qual até Charles Darwin, em 1836, duvidou se não seria obra de engenharia e não da natureza.

Empresários e governantes a favor da obra justificavam que Suape iria atrair "empreendimentos privados dinâmicos" totalizando cerca de 3 bilhões de dólares, em valores de 2008. As atividades previstas incluíam, "seja em função das exigências do desenvolvimento regional, seja pela existência de patrocinadores", uma refinaria de petróleo, um complexo de fertilizantes, uma fábrica de alumínio, uma de cimento e uma de pneumáticos.

"Apesar da batalha travada por mais de três anos, o porto foi construído, a comunidade local desapareceu e os riscos ambientais da disposição de sedimentos são sentidos nos dias de hoje", concluiu o pesquisador.

Heloisa Bio Ribeiro 

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